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Aprender a vida a partir do jogo: sobre a copa mundial de futebol (por Joseph Ratzinger)
16 de junho de 2014
Entre a vasta variedade de temáticas abordadas pelo Cardeal Joseph Ratzinger se encontra também o fútebol ou, mais concretamente, os campeonatos mundiais de futebol. Foi em 1985 que se ocupou disto. O resultado foi recolhido na época no livro «Suchen, was droben ist» («Buscar as coisas do alto»).
Anos mais tarde, em 2008, o mesmo texto foi republicado – en espanhol– no livro «O resplendor de Deus em nosso tempo», de a editora Herder. As mentes brilhantes tem esse dom de aprofundar nos recôncavos do aparentemente óbvio e descobrir-nos o que nem todos conseguer ver em um segundo, terceiro e inclusive quarto momento. É este o caso. Como se pode advertir, o Cardeal Ratzinger prova –talvez sem pretendê-lo– que o futebol é uma realidade que pode ser tomada a sério: de forma amena, profunda e interessante. Adereços mais bem escassos na literatura esportiva.
***
Com seu período de quatro anos, o Campeonato Mundial de Futebol demonstra ser um acontecimento que cativa centenas de milhões de pessoas. Não há quase nenhum outro acontecimento na terra que alcance uma repercusão de vastidão semelhante. O que demonstra que com isso está tocando-se algo radicalmente humano, e cabe se perguntar onde se encontra o fundamento deste poder em jogo.
O pessimista dirá que é o mesmo que na antiga Roma. O slogan das massas rezava 'panem et circenses', pão e circo. Pão e jogos são, que mal nos pese, o conteúdo vital de uma sociedade decadente que não conhece mais, objetivos mais elevados. Mas mesmo quando se aceita este julgamento, não seria de modo algum suficiente.
Caberia perguntar ainda: em que se baseia a fascinação do jogo como para que chegue a ocupar um lugar de igual importância que o pão? Com a vista posta na antiga Roma poderia responder de novo que o grito de pão e circo é propriamente a expressão do desejo pela vida do paraíso, por uma vida de satisfação sem fadigas e de liberdade plenamente realizada.
Com efeito, este é, em última instância, o conteúdo do conceito de jogo: uma tarefa de tudo livre, sem objetivo e sem obrigação, e uma tarefa que, também, é tensa e emprega todas as forças do ser humano.
Neste sentido, o jogo seria então uma sorte em tentar o regresso ao paraíso: sair da escravizante seriedade da vida cotidiana e de seus cuidados pela vida para a seriedade livre do que não necessariamente tem que ser e que, justamente por isso, é belo. Frente a isso, o jogo transcende em certo sentido a vida cotidiana; mas, sobretudo no menino, tem ainda antes outro caráter: é um exercício para a vida, simboliza a vida e, por dizer assim, a adianta em uma forma plasmada com liberdade.
Segundo meu parecer, a fascinação do futebol reside essencialmente porque reúne esses dois aspectos de forma muito convincente. Obriga o homem antes de tudo a se disciplinar, de modo que, pelo treinamento, adquire a disposição sobre si mesmo, por tal disposição, superioridade, e pela superioridade, liberdade.
Mas depois lhe ensina também a cooperação disciplinada: como jogo de equipe, o futebol o obriga a um ordenamento próprio dentro do conjunto. Une através do objetivo comum; o êxito e o fracasso de cada um estão cifrados no êxito e no fracasso do conjunto.
Finalmente, o futebol ensina um enfrentamento limpo em que a regra comum que o jogo se submete segue sendo o que une e vincula ainda na posição de adversários e, além disso, a liberdade do lúdico, quando se desenvolve corretamente, faz que a seriedade do enfrentamento torne a se resolver e desemboque na liberdade da partida finalizada.
Na qualidade de espectadores, os homens se identificam com o jogo e com os jogadores e, desse modo, participam da comunidade da própia equipe, do enfrentamento com o outro, assim como da seriedade e da liberdade do jogo: os jogadores passam a ser símbolos da própria vida. Isso age retroativamente sobre eles: sabem, com efeito, que as pessoas se veem representadas e confirmadas a si mesmas neles.
Naturalmente, tudo isto pode se perverter por um espírito comercial que submete tudo isso na sombria seriedade do dinheiro, e o jogo deixa de ser tal modo para transformar-se em uma indústria que suscita um mundo de aparência de dimensões horrorosas. Mas para esse mundo de aparência não poderia subsistir se não existisse a base positiva que subjaz ao jogo: o exercício preparatório para a vida e a transcendência da vida para o paraíso perdido. Não obstante, em ambas as coisas há que buscar uma disciplina da liberdade; na vinculação à regra, exercitar a ação conjunta, o enfrentamento e o se valer por si mesmo. Se considerarmos tudo isto, talvez pudéssemos aprender de novo a vida a partir do jogo.
Com efeito: nele se faz visível algo fundamental: não só de pão vive o homem; mais ainda: o mundo do pão é em definitivo só o estado preliminar do propriamente humano, do mundo da liberdade. Mas a liberdade vive da regra, da disciplina que aprende o atuar conjunto e o correto enfrentamento, o ser independente do êxito exterior e da arbitrariedade, e desse modo chega a ser verdadeiramente livre. O jogo, uma vida: se aprofundamos, o fenômeno de um mundo entusiasmado pelo futebol poderá oferecer-nos mais que um mero entretenimento
http://actualidadyanalisis.blogspot.com.br/2014/06/aprender-la-vida-partir-del-juego-sobre.html
Aprender a vida a partir do jogo: sobre a copa mundial de futebol (por Joseph Ratzinger)
16 de junho de 2014
Entre a vasta variedade de temáticas abordadas pelo Cardeal Joseph Ratzinger se encontra também o fútebol ou, mais concretamente, os campeonatos mundiais de futebol. Foi em 1985 que se ocupou disto. O resultado foi recolhido na época no livro «Suchen, was droben ist» («Buscar as coisas do alto»).
Anos mais tarde, em 2008, o mesmo texto foi republicado – en espanhol– no livro «O resplendor de Deus em nosso tempo», de a editora Herder. As mentes brilhantes tem esse dom de aprofundar nos recôncavos do aparentemente óbvio e descobrir-nos o que nem todos conseguer ver em um segundo, terceiro e inclusive quarto momento. É este o caso. Como se pode advertir, o Cardeal Ratzinger prova –talvez sem pretendê-lo– que o futebol é uma realidade que pode ser tomada a sério: de forma amena, profunda e interessante. Adereços mais bem escassos na literatura esportiva.
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Com seu período de quatro anos, o Campeonato Mundial de Futebol demonstra ser um acontecimento que cativa centenas de milhões de pessoas. Não há quase nenhum outro acontecimento na terra que alcance uma repercusão de vastidão semelhante. O que demonstra que com isso está tocando-se algo radicalmente humano, e cabe se perguntar onde se encontra o fundamento deste poder em jogo.
O pessimista dirá que é o mesmo que na antiga Roma. O slogan das massas rezava 'panem et circenses', pão e circo. Pão e jogos são, que mal nos pese, o conteúdo vital de uma sociedade decadente que não conhece mais, objetivos mais elevados. Mas mesmo quando se aceita este julgamento, não seria de modo algum suficiente.
Caberia perguntar ainda: em que se baseia a fascinação do jogo como para que chegue a ocupar um lugar de igual importância que o pão? Com a vista posta na antiga Roma poderia responder de novo que o grito de pão e circo é propriamente a expressão do desejo pela vida do paraíso, por uma vida de satisfação sem fadigas e de liberdade plenamente realizada.
Com efeito, este é, em última instância, o conteúdo do conceito de jogo: uma tarefa de tudo livre, sem objetivo e sem obrigação, e uma tarefa que, também, é tensa e emprega todas as forças do ser humano.
Neste sentido, o jogo seria então uma sorte em tentar o regresso ao paraíso: sair da escravizante seriedade da vida cotidiana e de seus cuidados pela vida para a seriedade livre do que não necessariamente tem que ser e que, justamente por isso, é belo. Frente a isso, o jogo transcende em certo sentido a vida cotidiana; mas, sobretudo no menino, tem ainda antes outro caráter: é um exercício para a vida, simboliza a vida e, por dizer assim, a adianta em uma forma plasmada com liberdade.
Segundo meu parecer, a fascinação do futebol reside essencialmente porque reúne esses dois aspectos de forma muito convincente. Obriga o homem antes de tudo a se disciplinar, de modo que, pelo treinamento, adquire a disposição sobre si mesmo, por tal disposição, superioridade, e pela superioridade, liberdade.
Mas depois lhe ensina também a cooperação disciplinada: como jogo de equipe, o futebol o obriga a um ordenamento próprio dentro do conjunto. Une através do objetivo comum; o êxito e o fracasso de cada um estão cifrados no êxito e no fracasso do conjunto.
Finalmente, o futebol ensina um enfrentamento limpo em que a regra comum que o jogo se submete segue sendo o que une e vincula ainda na posição de adversários e, além disso, a liberdade do lúdico, quando se desenvolve corretamente, faz que a seriedade do enfrentamento torne a se resolver e desemboque na liberdade da partida finalizada.
Na qualidade de espectadores, os homens se identificam com o jogo e com os jogadores e, desse modo, participam da comunidade da própia equipe, do enfrentamento com o outro, assim como da seriedade e da liberdade do jogo: os jogadores passam a ser símbolos da própria vida. Isso age retroativamente sobre eles: sabem, com efeito, que as pessoas se veem representadas e confirmadas a si mesmas neles.
Naturalmente, tudo isto pode se perverter por um espírito comercial que submete tudo isso na sombria seriedade do dinheiro, e o jogo deixa de ser tal modo para transformar-se em uma indústria que suscita um mundo de aparência de dimensões horrorosas. Mas para esse mundo de aparência não poderia subsistir se não existisse a base positiva que subjaz ao jogo: o exercício preparatório para a vida e a transcendência da vida para o paraíso perdido. Não obstante, em ambas as coisas há que buscar uma disciplina da liberdade; na vinculação à regra, exercitar a ação conjunta, o enfrentamento e o se valer por si mesmo. Se considerarmos tudo isto, talvez pudéssemos aprender de novo a vida a partir do jogo.
Com efeito: nele se faz visível algo fundamental: não só de pão vive o homem; mais ainda: o mundo do pão é em definitivo só o estado preliminar do propriamente humano, do mundo da liberdade. Mas a liberdade vive da regra, da disciplina que aprende o atuar conjunto e o correto enfrentamento, o ser independente do êxito exterior e da arbitrariedade, e desse modo chega a ser verdadeiramente livre. O jogo, uma vida: se aprofundamos, o fenômeno de um mundo entusiasmado pelo futebol poderá oferecer-nos mais que um mero entretenimento
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