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Um pouco de doutrina social
Defender a vida e a família e, ao mesmo tempo, calar diante da depauperação das condições de trabalho é esquizofrênico.

Juan Manuel de Prada - 12 maio 2013 - religionenlibertad.com
Escrevia Chesterton que o mundo moderno tinha sido invadido pelas velhas virtudes cristãs que se tornaram loucas. A simples vista, parece tão somente uma frase eufônica; mas creio que é o diagnóstico mais certo e sintético que se pode oferecer de nossa época. As virtudes se tornam loucas quando são isoladas umas das outras, quando são desgarradas do tronco comum que lhes dá sustento. Este isolamento das virtudes podemos contemplar em toda parte: assim, por exemplo, a justiça sem misericórdia não tarda em corromper-se e tornar-se crueldade; e a misericórdia sem justiça acaba degenerando em lassidão e complacência. Se analisamos as ideologias modernas (que alguém definiu como «heresias cristãs»), comprovaremos que todas elas são produto desta desconecção das virtudes cristãs: a liberdade sem verdade, a justiça sem caridade, etc. Mas a invasão das virtudes loucas não é um fenômeno próprio somente do mundo secular, mas que estende também sua gangrena no próprio âmbito católico. Bento XVI denunciou em diversas ocasiões, referindo-se à «esquizofrenia entre a moral individual e a pública» que afeta muitos crentes, de tal modo que «na esfera privada atuam como católicos, mas na vida pública seguem outras vias que não correspondem aos grandes valores do Evangelho».
Segundo esta esquizofrenia própria de um mundo invadido pelas velhas virtudes cristãs que se tornaram loucas, um empresário poderia ser amantíssimo esposo e pai de família e, ao mesmo tempo, defraudar a jornada de seus trabalhadores. E assim ocorre com muitos; só que quem defrauda a jornada do trabalhador acaba também enganando sua mulher e seus filhos, cedo ou tarde. Sobre este perigo já advertia João XXIII em sua encíclica 'Mater et Magistra', quando assinalava que «a doutrina social professada pela Igreja católica é algo inseparável da doutrina que a mesma ensina sobre a vida humana»; é que, com efeito, pouco sentido teria defender a vida e a família se ao mesmo tempo não se defendesse uma concepção de trabalho que permita as pessoas criar dignamente seus filhos. O trabalho, nos recordava João Paulo II em sua encíclica 'Laborem Exercens', é uma condição para tornar possível a fundação de uma família, já que esta exige os meios de subsistência, que o homem adquire normalmente mediante o trabalho. Defender a vida e a família e, ao mesmo tempo, calar diante da depauperação das condições de trabalho é esquizofrênico.
Nos últimos anos tenho estudado muito a doutrina social da Igreja em torno do trabalho, para descobrir que seus ensinamentos foram esquecidos inclusive pelos próprios católicos. Isto é um triunfo do mundo invadido pelas velhas virtudes cristãs que se tornaram loucas; e também uma causa evidente de que a doutrina católica sobre a vida humana se tornou ininteligível, inclusive desumana, aos olhos de muitos. Pois, certamente, resulta árduo combater por exemplo o aborto quando não se combatem as condições de trabalho indignas que para muita gente impede ou dificulta ter mais filhos. Escrevia João Paulo II em sua encíclica 'Centesimus Annus': «A obrigação de ganhar o pão com o suor do próprio rosto supõe, ao mesmo tempo, um direito. Uma sociedade em que estes direitos são negados sistematicamente e as medidas de política econômica não permitam aos trabalhadores alcançar níveis satisfatórios de ocupação não pode conseguir sua legitimação ética nem a justa paz social. Assim como a pessoa se realiza plenamente na livre doação de si mesma, também a propriedade se justifica moralmente quando cria, nos devidos modos e circunstâncias, oportunidades de trabalho e crescimento humano para todos».
O próprio João Paulo II, em 'Laborem Exercens', recordava que é obrigação dos cristãos «recordar sempre a dignidade e os direitos dos homens do trabalho, denunciar as situações em que se violam os ditos direitos e contribuir para orientar estas mudanças para que se realize um autêntico progresso do homem e da sociedade». E acrescentava que a maior verificação de sua fidelidade a Cristo a mostra o cristão em seu compromisso com os pobres, que «aparecem em muitos casos como resultado da violação da dignidade do trabalho humano: bem seja porque se limitam as possibilidades de trabalho -ou seja, pela praga do desemprego-, ou porque se depreciam o trabalho e os direitos que fluem do mesmo, especialmente o direito ao justo salário, a segurança da pessoa do trabalhador e de sua família».
Quem tenha ouvidos para ouvir que ouça.
©XLSemanal
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