Eis que venho, Senhor!

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Escrevia Chesterton que, com frequência, as ideias novas não são senão o disfarce com o qual se nos apresentam os velhos erros de sempre.


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Corpo


Juan Manuel de Prada


Contra esta ideia tão velha de considerar o corpo um cárcere em  que jazemos prostrados, em espera de uma libertação definitiva, se considerou o cristianismo, com uma ideia nova, escandalosa e subversiva.

Juan Manuel de Prada - 29 abril 2013 -religionenlibertad.com

Escrevia Chesterton que, com frequência, as ideias novas não são senão o disfarce com o qual se nos apresentam os velhos erros de sempre.

Poucas vezes eu tive consciência da verdade desta afirmação como quando lendo ma interessantíssima entrevista de Judith de Jorge a Kevin Warwick, professor da Universidade de Reading, um visionário da cibernética que   chegou a se implantar  chip  em seu próprio corpo, obtendo resultados em verdade, inauditos: assim, por exemplo, conseguiu conectar seu cérebro com o computador de um edifício inteligente; e também mover de  Nova York um braço elétrico que estava na Inglaterra, através dos impulsos elétricos de neurônios. Além disso, Warwick   conseguiu -sempre mediante o implante de chip- manter conectado seu cérebro ao de sua mulher e enviar sinais de um sistema nervoso ao outro; a experiência  descreve o cientista como «algo muito íntimo, inclusive mais que o sexo», e assegura que «este tipo de comunicação, cérebro a cérebro através do pensamento, será o que existirá no futuro», pois considera que as formas de comunicação entre humanos que na atualidade existem através da linguagem ou do contacto físico são de uma pobreza «vergonhosa».

Warwick conclui com uma proclamação: «O corpo humano é um grande problema. Já não o necessitamos. Se pudéssemos desfazer-nos dele, poderíamos viver muito mais tempo».

É a mesma proclamação que lançaram, desde que o mundo é mundo, todas as religiões 'espiritualistas', começando pelas gnósticas: nosso corpo, nossa carne doente, este mísero barro de  que somos feitos, exposto à decrepitude e às debilidades, é um lastro de que logo nos veremos livres, para alcançar uma vida mais plena em um mais além em que nosso espírito, libertado de tão pesado fardo, alcance a perfeição divina.

Naturalmente, muda o modo de expressar este desejo: o espiritualista de antanho falava de alma ou espírito, o materialista de hoje fala de cérebro ou impulsos elétricos dos neurônios; o espiritualista de antanho se referia a um 'mais além' que residia na vida do além túmulo, o materialista de hoje se refere a um futuro de que poderemos desfrutar nesta vida; o espiritualista de antanho situava a plenitude na fusão de seu espírito com Deus, o materialista de hoje pensa que o homem   -o seu cérebro impulsionado por implantes cibernéticos- é Deus.
Mas o erro  é exatamente o mesmo: o mal e a perdição estão ligados ao corpo; a salvação está ligada a uma experiência interna (do espírito, segundo o gnosticismo de antanho; do cérebro, segundo o materialismo de hoje).
Naturalmente, o mal e a perdição estavam associados no passado  ao pecado; hoje o mal e a perdição se associam melhor a decrepitude, a enfermidade, inclusive às limitações de nossas pobres e vergonhosas ´formas de comunicação´. Porém sempre é o corpo o problema  que convém se desfazer. É o velho erro disfarçado com roupagens novas, para simular uma ideia nova.

Contra esta ideia tão velha de considerar o corpo um cárcere em que jazemos prostrados, em espera de uma libertação definitiva, se elevou ao cristianismo, com uma ideia nova, escandalosa e subversiva.

Nosso corpo, tão tentado pelas debilidades, tão açoitado pelos padecimentos e pelos achaques, deixa de ser um fardo vergonhoso que nos separa de uma vida mais plena, para converter-se em recipiente da divindade; nosso corpo, cujo destino aparente é a morte, se faz partícipe da natureza divina, aprendendo que esse destino é uma mera miragem, um transe para outra vida mais plena, que já não consistirá na emancipação do espírito (ou do cérebro), mas na glorificação da carne, convocada à ressurreição.

Quando São Paulo falou no Areópago, todas suas ideias sobre a divindade foram facilmente digeridas pelos sábios de Atenas que o escutaram (como poderia tê-las digerido sem dificuldade Warwick, se em lugar de Deus tivesse falado São Paulo do cérebro ou dos impulsos elétricos dos neurônios); o que na verdade escandaliza e encrespa os sábios de Atenas é que,   nessa viajem até a plenitude, São Paulo não considera o corpo um ´problema´ de que convém se desfazer, mas que o exalte até convertê-lo no recipiente necessário de tal plenitude.

O corpo, com todas suas rugas, flacidez, cólicas de rim, deficiências cárdio-respiratórias, mal humores, secreções e excrementos; o corpo que se lastima, que treme, que vibra de gozo e de dor, que  apodrece e  morre. E que, no entanto,   nasceu para a glória. Isto sim é que é uma ideia nova.

©XLSemanal

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